. . Carta do Gestor: Nova Tempestade Perfeita (Parte 2)

Em setembro, no fechamento do terceiro trimestre (3T21), vimos novos capítulos da “nova tempestade perfeita” que escrevemos nesta carta. Lembramos que os fatores que nos levaram a classificar a conjuntura econômica como de tempestade perfeita até este mês foram:

1) Pressão inflacionária;
2) Piora fiscal;
3) Crise hídrica;
4)Tensão política;
5) Recuperação frágil;
6) Desemprego elevado;
7) Endividamento recorde das famílias;
8) Política monetária mais restritiva nos EUA;
9) Commodities mais voláteis; e
10) Juros futuros subindo no Brasil.

Então, na Carta do Gestor de Outubro, atualizaremos as questões relacionadas ao que chamamos de “tempestade perfeita” e adicionamos novos elementos a nossa análise.

E aproveitamos a oportunidade para lembrar que realizaremos um evento online e gratuito sobre o tema “Nova Tempestade Perfeita: o cenário de investimentos e a importância de diversificação” na noite de 13 de outubro, das 18h às 19h30. Saiba mais e garanta sua vaga aqui!

Nossa atualização mostra pressão inflacionária, por isso o movimento contínuo de ajuste da taxa de juros para cima. Na reunião de setembro, a autoridade monetária elevou a taxa de juros em 1.p.p., levando a taxa de 5,25% a.a. para 6,25%. E sinalizou que deve aumentar a taxa na mesma magnitude na reunião do fim de outubro. O que parece ser algo necessário para controlar a inflação, mas é negativo para a frágil recuperação da economia brasileira.

Quanto ao quadro fiscal, os dados divulgados pelo Banco Central mostraram melhora na situação corrente. Mas a incerteza é considerável, dado que 2022 é ano de eleição. No que se refere à crise hídrica, seguiu preocupando, inclusive derrubando as expectativas da indústria e criando assimetria setorial, sobretudo daquelas empresas mais dependentes de energia elétrica.

No que tange à tensão política, tivemos um episódio que gerou apreensão no mercado em setembro: as manifestações do presidente Jair Bolsonaro nas comemorações no dia 7 de setembro. O que acabou muita tensão, dado o forte ataque ao STF, visto por parte da sociedade como um a ataque à democracia. Posteriormente, o presidente divulgou uma carta tentando remediar a situação. Mas como sabemos, o clima já era tenso entre Bolsonaro e o STF, é apenas um aperitivo do que veremos ao longo do processo eleitoral até 2022. Ou seja, é um fator que ainda trará muita volatilidade ao mercado financeiro brasileiro até o pleito eleitoral.

Em relação à política monetária mais restritiva nos EUA, viu-se na divulgação do comunicado da reunião do FOMC que a autoridade monetária manteve a taxa de juros entre 0% e 0,25% e sinalizou redução dos estímulos monetários (Tapering) ainda em 2021 e indicou que deve começar a elevar os juros em 2022. Isso porque na medida em que a recuperação acontece e a inflação está mais elevada. No entanto, vale destacar que a economia norte-americana segue crescendo com força, com demanda elevada, mas também com restrições do lado da oferta. Problemas com transporte, mão-de-obra e materiais tem tornado mais difícil o ritmo de produção.

Quanto ao endividamento elevado das famílias brasileiras, desemprego alto e recuperação frágil, observou-se piora no endividamento e na recuperação da economia brasileira. O que melhorou foi a taxa de desemprego que recuou de 14,1% em junho para 13,7% em julho. Mas a absorção de mão-de-obra ainda está aquém do desejado dado que o crescimento é lento.

No que se refere aos “novos capítulos” adicionados em setembro, ao que chamamos de “nova tempestade perfeita”, destaque para a crise na China e crise na Europa. Por isso, seguiremos com a numeração da carta anterior, conforme segue o texto.

  1. Crise na China – preocupação com a Evergrande e o modelo de crescimento da economia chinesa. A Evergrande é uma das maiores incorporadoras imobiliários da China, entre outras. É uma empresa bastante alavancada, com expansão fora do setor imobiliário, com passivos de mais de US$ 300 bilhões. E com a desaceleração da economia do país asiático, o preço das residências e de aluguel começaram a declinar fazendo com que empresa tivesse dificuldade em honrar seus compromissos financeiros, sinalizando um possível calote, o que tem gerado forte quedas nos mercados e tem elevado as preocupações com o desempenho da China e suas consequências na economia global. Ademais, tem sido visto uma crise energética, com preços em alta e interrupções no fornecimento de energia.
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  3. Crise na Europa – gargalos da cadeia de suprimentos durando mais do que o previsto, gerando aumento de custos e redução das margens de lucro. Por isso, muitas empresas estão aumentando os preços visando proteger o percentual de ganhos. Assim, a preocupação Inflação acelerou, o IPC europeu atingiu o patamar mais elevado em 13 anos, 3,4%. Além disso, a crise energética tem piorado. Muitos problemas no fornecimento de gás natural, algo crítico devido a proximidade do inverno. Logicamente, tem questões políticas envolvendo o fornecimento de gás por parte da Rússia.

Desse modo, nesse ambiente, a bolsa brasileira voltou a registrar desempenho negativo em setembro/21, encerrando o terceiro trimestre (3T21) com queda expressiva. Conforme pode ser visto no gráfico 1, o Ibovespa recuou 6,57% em setembro, fechando com queda de 12,48% no 3T21 (ver gráfico 2) na comparação com o segundo trimestre (2T21). No ano, até o fim de setembro, a queda foi de 6,75%, com o índice fechando em 110.979 pontos.

Fonte: B3

No gráfico 2, considerando-se o desempenho por setores, observa-se que a queda foi generalizada no 3T21. O setor imobiliário teve o pior desempenho. O IMOB registrou recuo de 23,01%, seguido do IMAT, ligado às commodities, que teve queda de 15,21%. Em suma, é possível verificar um cenário de elevada incerteza, ainda mais quando diversos fatores negativos ocorrem ao mesmo, configurando-se como o que chamamos de “tempestade perfeita”, os preços dos ativos financeiros tendem a ter perda de valor em conjunto, como pode ser observado no gráfico 2.

Já no gráfico 3, considerando-se o desempenho por setores no ano até o fim de setembro/21, observa-se que a queda mais expressiva também foi do setor imobiliário. O IMOB registrou recuo de 28,36%, seguido do IFNC, ligado às instituições financeiras, que teve queda de 15,57%. Do lado positivo de desempenho em 2021, destaque para o INDX e para o IMAT, com altas, respectivamente, de 9,82% e 7,6% no período.

Fonte: B3

E quanto ao futuro, para que tenhamos uma ideia da “temperatura” das projeções para o desempenho da economia brasileira, foca-se nas mudanças das estimativas para as variáveis macroeconômicos de 2021 e 2022 vistas nas tabelas 1 e 2. Na tabela 1, com estimativas  dos analistas consultados pelo Banco Central até o último dia 24 de setembro, observa-se que a Selic projetada para o fim 2021, que estava em 6,50% em junho/21, passou para 8,25% em setembro/21. Na mesma base de comparação, o IPCA esperado passou de 5,97% para 8,45%. O crescimento projetado do PIB, também na mesma relação anterior, ficou praticamente estável em 5,04%. O indicador que apresentou leve melhora foi o IGP-M, que passou de 19,12% em junho/21 para 18,18%. Também foram tiveram revisão positiva os dados da balança comercial e do setor público.

Na tabela 2, também com estimativas até o último dia 24 de setembro, observa-se que a Selic projetada para o fim 2022, que estava em 6,50% em junho/21, passou para 8,5% em setembro/21. Na mesma base de comparação, o IPCA esperado passou de 3,78% para 4,12%. O IGP-M passou de 4,6% para 5%. O crescimento projetado do PIB, seguiu a tendência de piora, passou de 2,11% em junho/21 para 1,57% em setembro/21. Do lado positivo, tiveram melhora a revisão dos dados da balança comercial e do setor público.

Em suma, os dados econômicos do Brasil mostram um cenário pior para o restante de 2021 e para 2022 do que era esperado recentemente por conta da “nova tempestade perfeita”. E, por consequência, o desempenho do mercado financeiro ficou bem aquém da expetativa no 3T21 e em 2021, o que abre oportunidades para rever as carteiras, como estamos fazendo na nossa gestão.

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